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"Vida sem valor"

O fetiche do capital e a economia política da "vida nua"

2015 [pdf]

 

A modernidade do fetiche do capital, na verdade, recuperou as antigas relações de sacrificio que Agamben reconhece terem estado na origem das comunidades humanas, dando-lhe uma nova forma. A relação de sacrificio desvinculou-se do antigo princípio transcendente das matrizes religiosas pré-modernas e foi antes transposto para o sistema social bem terreno e autonomizado da relação de capital (Kurz, 2014: 366), ganhando assim uma forma transcendental. Aí os seres humanos aparecem como autoproprietários que auto-sacrificam a sua energia vital através do trabalho abstracto com o objectivo social último de valorizar o valor, de criar dinheiro para voltar a criar mais dinheiro. Quando esta norma começa a rodar em falso, em virtude da sua própria contradição fundamental, a excepção mostra o carácter monstruoso da própria regra. É neste sentido que Agamben pode dizer que hoje "somos todos virtualmente homines sacri" (Agamben, 1998: 111). De facto, para um número cada vez maior de pessoas, a energia vital sacrificada através do trabalho abstracto da relação de capital já não cria mais o valor necessário ao próprio consumo do sacrificio. Para muitos, a solução é já a venda do corpo "às peças", o que se vê na crescente liberalização do comércio de órgãos. Outros tornam-se insacrificáveis, expostos à morte, não simplesmente por causa de uma declaração politico-jurídica ou da sua ausência, mas pela simples falta de rentabilidade sacrificial.

 

 

The insolvency of bodies

Self-ownership and the historical dynamics of the relation of capital

2014 [pdf]

 

All over the world the number of people who advertise in classified pages or online their complete willingness to sell a kidney, a lung, part of a liver or an eye is increasing; and in principle, nothing prevents that same person from selling it all. The fact that the organ trade is now illegal in almost every country does not seem to disturb the functioning of the global "red market", the corresponding mafia organizations, and "transplant tourism". Given the global demand and the problems related to the trafficking of organs, there is no shortage of apologists for the liberalization of the trade. "Why not? Are modern subjects not owners of themselves? What is the point of owning something if we cannot sell it?" Basically, this ideologically neo-liberal argument only cynically takes one of the fundamental presuppositions of capitalism to its logical conclusion, about which there is a broad consensus: "self-ownership".

 

 

A insolvência dos corpos

A autopropriedade e a dinâmica histórica da relação de capital

2014 [pdf]

 

Por todo o mundo são cada vez mais aqueles que anunciam nas páginas de classificados ou em anúncios on-line a sua inteira disponibilidade para vender um rim, um pulmão, parte do fígado ou um olho; e em princípio nada impede que um mesmo indivíduo venda tudo isso. O facto de o comércio de órgãos ser hoje ilegal em quase todos os países também não parece perturbar em nada o funcionamento do “mercado vermelho” global, nem as correspondentes organizações mafiosas e o “turismo de transplantes”. Face à procura mundial e aos problemas associados ao tráfico de órgãos, não faltam por isso também apologistas da liberalização do seu comércio. “E por que não? Não são os sujeitos modernos proprietários de si mesmos? Qual o sentido de ser proprietário de uma coisa se não a podemos vender?”. No fundo, esta argumentação ideológica neo-liberal limita-se a levar cinicamente até ao fim um dos pressupostos fundamentais do capitalismo mas sobre o qual existe um dos mais amplos consensos: a “propriedade de si”.

 

 

 

The "explosion of the city" and the trajectory of capitalism

October 2013 [pdf]

 

But how can this help us understand the relation between cities and the historical development of capitalism? It seems to me that this should be done via a deeper analysis of four main problems: 1) by making a crystal clear differentiation between pre-capitalist and capitalist cities, both in their different social fetishistic forms as in their corresponding urban forms; 2) the historical process of the constitution of capital, i.e., the problem of the "transition from feudalism to capitalism" and the role of cities in this process; 3) the logic and internal functioning of capitalism “already moving on its own foundation” (Marx 1973: 253), i.e., the progressive territorialization of capitalism as a “labor society” and a “mode of production based on value”, most notably since the second half of the nineteenth century, leading to the “urban explosion” of last century; and 4) the territorial expression of the world crisis on the global urban system. Naturally, I cannot explore all of these issues here but I can try to delimit the problems and discuss where the retro-projection of modern categories is more common.

 

 

A "explosão da cidade" e a trajectória do capitalismo

Outubro 2013 [pdf]

 

Mas de que modo é que isto nos pode ajudar a compreender a relação entre as cidades e o desenvolvimento histórico do capitalismo? Parece-me que devemos fazê-lo através de um aprofundamento de quatro problemas: em primeiro lugar, realizar uma diferenciação muito clara entre as cidades pré-capitalistas e capitalistas, tanto nas suas diferentes formas sociais fetichistas quanto nas respectivas formas urbanas; em segundo lugar, o processo histórico de constituição do capital, ou seja, o problema da “transição do feudalismo para o capitalismo” e o papel das cidades nesse processo; em terceiro lugar, a lógica e o funcionamento interno do capitalismo “que se move sobre sua própria base” (Marx 2011: 195), ou seja, a territorialização progressiva do capitalismo como “sociedade do trabalho” e “modo de produção baseado no valor” (Marx), sobretudo desde a segunda metade do século XIX, que se traduziu na “explosão urbana” do último século; e em quarto lugar, a expressão territorial da crise global no sistema urbano mundial. Claro que não posso aprofundar aqui todas estas questões; mas posso procurar balizar um pouco melhor as problemáticas e alongar-me um pouco mais naquelas onde a retroprojecção das categorias modernas é mais comum.

 

 

O paradoxo da nova escravatura global e os pressupostos cegos da ideologia anti-escravatura hoje

Para a crtica do conceito de "nova escravatura" em Kevin Bales

Outubro de 2012 [pdf]

 

Recentemente as Nações Unidas e as organizações humanitárias internacionais têm constatado com surpresa que apesar de a escravatura ser hoje ilegal em todo o mundo nunca houve na história tantos escravos como agora, com um número que de acordo com diversas estimativas se aproxima dos 30 milhões (Bales, 2005; Kara, 2009), a maioria dos quais surgidos nos últimos 50 anos. Os mais optimistas esforçam-se cinicamente por mostrar de forma inversa que estes números globais absolutos não reflectem que relativamente à população mundial nunca houve na história tão poucos escravos como hoje, enquanto os mais pessimistas ficam paralisados sem saber exactamente o que pensar. Ora, se a escravatura se encontra hoje ilegalizada em todo o mundo, isto significa que o projecto abolicionista clássico, de acordo com os seus próprios critérios legalistas, chegou ao fim com um resultado histórico paradoxal: a expansão mundial da forma jurídica que ilegaliza a escravatura é historicamente acompanhada pelo crescimento exponencial do número de escravos ou de situações humanas próximas da escravatura. E isto acontece não só nos países ditos sub-desenvolvidos mas também bem no seio das metrópoles dos países industrializados dos EUA, França e Reino Unido. O que deveria ser um motivo urgente de reflexão é justamente ignorado de forma flagrante.

 

 

Abstract labor and the ideological character of modern functionalist architecture

Março de 2013 [pdf]

 

But unlike positivist sociology, which supposedly intends to only interpret social structure, functionalist architecture has the paradoxical claim to be a kind of consciously applied structuralism, in which supposedly objective, abstract and eternal functional laws, that were previously interpreted, ultimately need to be subjectively expressed in new, concrete architectural forms. The functionalist architectural challenge reveals itself to be a progressive research of the material forms suited to the functional requirements of capitalist social reproduction aprioristically assumed. Thus, a truly “functional” building is not one that meets the specific needs of its users (as in the concept of Vitruvius’s utilitas), but one that above all ensures the functionality of the modern social totality.

 

 

O trabalho abstracto e o carácter ideológico da arquitectura funcionalista moderna

Março de 2013 [pdf]

 

Mas ao contrário da sociologia positivista, que supostamente pretende apenas interpretar a estrutura social, a arquitectura funcionalista tem a pretensão paradoxal de ser uma espécie de estruturalismo conscientemente aplicado, em que leis funcionais supostamente eternas, objectivas e abstractas previamente interpretadas precisam afinal de ser subjectivamente expressas em novas formas arquitectónicas concretas. O desafio arquitectónico funcionalista revela-se assim uma progressiva pesquisa das formas materiais adequadas às exigências funcionais da reprodução social capitalista assumidas aprioristicamente. Desse modo, verdadeiramente “funcional” não é um edifício que dá resposta às necessidades específicas dos seus utilizadores (como no conceito de ‘utilitas’ de Vitrúvio) mas aquele que acima de tudo garante a funcionalidade da totalidade social moderna.

 

 

«Direito ao Trabalho»

2012 [pdf]

 

 

 

Recensão de "Classes, Valor e Acção Social" de João Valente Aguiar

Novembro de 2011 [pdf]

 

 

 

Apresentação dos ensaios "O Valor é o Homem" e "O Tabu da Abstracção", de Roswitha Scholz

Outubro de 2011 e Maio de 2012 [pdf]

 

O texto que se segue reune duas comunicações de introdução ao pensamento de Roswitha Scholz. A primeira debruçou-se sobre o ensaio “O valor é o homem. Teses sobre a socialização pelo valor e a relação entre os sexos”, e foi apresentada no âmbito do colóquio que lhe foi dedicado em Lisboa, na Casa da Achada (Centro Mário Dionísio), a 20 de Outubro de 2011. A segunda serviu de introdução a um debate em torno do ensaio “O Tabu da Abstracção no Feminismo. Como se esquece o universal do patriarcado produtor de mercadorias”, realizado a 26 de Maio de 2012 no Centro de Cultura e Intervenção Feminista da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) em Lisboa. Optou-se por procurar não só enquadrar os respectivos ensaios, mas também resumir o percurso teórico da autora desde o lançamento de “O valor é homem” em 1992, realçando os seus contributos para a crítica da dissociação-valor da EXIT!. O texto não pretende, por isso mesmo, ser uma apresentação exaustiva da teoria da dissociação-valor nem deve ser lido ou usado com essa intenção. O autor espera que a simplificação necessária para o tempo disponível e contexto social das comunicações não tenha prejudicado com gravidade o conteúdo radical da teoria da dissociação-valor.

 

 

O trabalho abstracto como apriorismo tácito na génese da sociologia dita 'urbana'

A ‘cidade’ como bode expiatório da sociedade do trabalho

Dezembro de 2007 [pdf]

 

Como é sabido, no final do século XIX começou a emergir um questionamento teórico da natureza da integração social nas grandes metrópoles que começavam então a surgir. O problema da integração social orientou assim formalmente a emergência da sociologia urbana e grande parte do seu desenvolvimento posterior como novo campo teórico do estudo das grandes cidades, entendidas como ‘laboratório’ (Park, 1915: 612) de estudo das sociedades modernas. (...) Seria de esperar que esta nova problemática dos finais do século XIX e princípios do século XX levasse a um questionar decisivo e crítico do trabalho como princípio social de organização dominante da sociedade moderna; no entanto, isso não aconteceu, visto que também nessas abordagens sociológicas que então emergiam o ‘trabalho’ era já um pressuposto ontológico inquestionável. Do nosso ponto de vista, a confusão teórica mais marcante deste apriorismo tácito nos primeiros avanços da sociologia urbana foi que a grande cidade per se seria, de alguma forma, a grande responsável pela ruptura dos laços sociais tradicionais, da anomia e do isolamento social do meio urbano.

 

 

O trabalho abstracto como pressuposto afirmativo de Manuel Castells

Sobre o ‘urbano’ enquanto ‘unidade de reprodução da força de trabalho’

Novembro de 2007 [pdf]

 

O desenvolvimento teórico da ‘sociologia urbana’ assumiu desde a sua génese o trabalho abstracto como um apriorismo tácito e com isso acabou por deslizar de forma clara para uma crítica superficial da urbanização da sociedade do trabalho, assente num determinismo espacial que dominou a disciplina até meados do século XX. Mas não podemos julgar que, enquanto pressuposto, o trabalho abstracto era exclusivo dos paradigmas dominantes: as críticas que Castells (1972/2000) lhes começou a dirigir no final da década de 1960 foram, também elas, marcadas por uma interiorização irreflectida do trabalho abstracto. Mas as teses de Castells são ainda mais significativas para a crítica da urbanização da sociedade do trabalho: é que Castells não se limita a pressupor o trabalho abstracto como forma social; o trabalho abstracto surge aí, paradoxalmente, como o próprio ‘ponto de partida’ da sua crítica da sociologia urbana e da urbanização capitalista.

 

 

História urbana e a constituição do trabalho abstracto

Notas para uma teoria crítica do espaço urbano moderno

Setembro de 2007 [pdf]

 

Devemos assim realizar uma diferenciação fundamental entre as sociedades pré-modernas e as sociedades modernas e suas respectivas formas de vida urbana e de urbanização, de modo que aquilo que têm em comum não ofusque os fenómenos que as distinguem, sob pena de cairmos em generalizações sem conteúdo. Isto quer dizer que a relação entre a ‘cidade’ e o ‘trabalho’ é mais complexa do que aquela que à primeira vista poderíamos julgar quando nos concentramos apenas na base material. É necessária uma interpretação cuidada tanto das práticas urbanas e das práticas de ‘trabalho’ e uma relativização histórica de seu significado, visto que nem a cidade nem o trabalho significaram sempre a mesma coisa para todas as sociedades nem a mudança de um deles implicava necessariamente ou de modo imediato a mudança do outro. Apenas o capitalismo moderno, ao instituir o trabalho como ‘objectivo em si próprio’ (Weber) e ao estruturar-se socialmente em torno do tempo de trabalho abstracto, trouxe consigo uma relação afirmativa e sistemática entre os significados das práticas urbanas e o trabalho como ‘forma de mediação social’ (Postone, 1993/2003).

 

 

Capitalismo como sociedade do trabalho

Resumo introdutório de uma definição essencial do capitalismo

Agosto de 2007 [pdf]

 

Sumário:
1. Conceitos tradicionais de capitalismo
2. Capitalismo como 'modo de produção baseado no valor'
3. Conceitos reduzidos de 'trabalho' e o debate sobre a 'crise da sociedade do trabalho'
4. Trabalho abstracto como forma social negativa

 

 

Excurso sobre o pessimismo cultural de Marc Augé: os 'não-lugares'

2006 [pdf]

 

 

Globalização, capital financeiro e território

Notas para investigações futuras sobre a urbanização do capital financeiro

Dezembro de 2004 [pdf]

 

Sumário:
1. A geografia de desenvolvimento da globalização
2. Grandes territórios e economia orientada para a exportação
3. A selectividade do investimento directo estrangeiro
4. A crescente importância social do capital financeiro
5. O mercado financeiro, as 'cidades globais' e a urbanização do sistema creditício