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Classes, Valor e Acção Social
João Valente Aguiar
Página a Página, Lisboa, 2010, 239 pp.

 

Bruno Lamas

 

In Le Monde Diplomatique – Edição portuguesa, II série, n.º 61.

Depois de décadas de investigação sociológica dominada pela orientação culturalista, a crise económico-financeira global veio rapidamente relembrar o problema da “economia”; um problema que, evidentemente, está hoje longe de se restringir à teoria. Não admira, portanto, que a moda académica tenha subitamente mudado e haja na sociologia quem queira agora reflectir em termos “económicos”, para não ficar para trás no “publish ou perish!”. A questão é que poucos sociólogos ainda o sabem fazer. Neste sentido, a obra “Classes, Valor e Acção Social” do sociólogo João Valente Aguiar pode ser entendida como um significativo esforço de anamnese conceptual, procurando lembrar à sociologia que “oblitera a questão do valor” como a “problematização sociológica da produção de valor económico no capitalismo incorpora uma das dimensões mais essenciais para a compreensão das sociedades contemporâneas”.

Depois de uma breve crítica de algumas concepções que escamoteiam a análise do valor (Habermas, Bourdieu, Castells e Gorz), Aguiar realça a utilidade da teoria da mais-valia de Marx para a compreensão sociológica da “génese estrutural das classes sociais” e, de forma correspondente, relembra os contributos do marxismo e sua definição do capital fundamentalmente como uma relação social de dominação da classe capitalista sobre a classe trabalhadora, tendo como “ponto de partida” o seu “desapossamento dos meios de produção” e como “centro nevrálgico” a exploração da mercadoria força de trabalho como única fonte de mais-valia.

Procurando salvaguardar-se da recorrente acusação de economicismo marxista, Aguiar recorre da distinção de raiz engelsiana, eternizada pelo estruturalismo althussereano nos anos 1960, entre relações económicas, políticas e ideológicas (na qual as primeiras não deixam de ser sempre consideradas em “última instância determinantes”) para aprofundar em separado a relevância das últimas para a “delimitação do campo de possibilidades de mobilização da classe trabalhadora”, a questão da passagem da “classe-em-si” à “classe-para-si”. Na instância política, Aguiar realça a natureza processual da “formação da classe trabalhadora” e, neste sentido, o seu carácter não inteiramente determinado mas apenas balizado pelos “limites mínimos e máximos de organização”, cabendo aos “partidos, movimentos sociais e sindicatos de vanguarda” potenciar e auxiliar na sua formação em “sujeito histórico”. Ao nível da instância cultural, Aguiar procura aprofundar a relação entre práticas e estruturas de classe, revisitando criticamente os conceitos de habitus (Bourdieu) e de consciência de classe (na acepção de Lukacs), e defendendo a necessidade da classe trabalhadora apresentar uma “predisposição prévia de aderir à luta”, baseada em elementos de auto-identificação e coesão grupal, ou seja, numa “cultura operária”.

Longe de secundarizar os aspectos empíricos, Aguiar termina a obra com uma abordagem histórica das lutas da classe trabalhadora agrícola alentejana desde a Primeira Republica (1910) ao declínio da Reforma Agrária (1989), capítulo onde o espírito sintético do autor se associa a uma cuidadosa selecção documental (estatística histórica, jornais e literatura de época) e a um estilo militantemente apaixonado pela resistência alentejana, notando-se no entanto uma escassa mediação com as abstracções teóricas dos capítulos iniciais.

Finalmente, deve dizer-se que todo o esforço de anamnese contém um risco de anacronismo; e, em certa medida, Aguiar limita-se a reproduzir concepções e soluções de debates do marxismo sociológico e político-sindical ocorridos há décadas, não só escamoteando as abordagens que na mesma época tentaram um uso político intencionalmente extra-sindical e extra-partidário da teoria do valor (caso do marxismo autonomista de Harry Cleaver), como ignorando teorias mais recentes que, partindo duma releitura de Marx (caso de Moishe Postone e da wertkritik alemã de Robert Kurz), fizeram do “valor” justamente a categoria negativa central de uma crítica do fetichismo do sistema moderno produtor de mercadorias na sua totalidade, fetichismo que é constituído e partilhado por todas as classes sociais. Porém, Aguiar não parece desconhecer as pistas teóricas de Marx que apontam para a necessidade desta crítica do fetichismo do valor; mas sentidas como um “corpo estranho” numa investigação sociológica são entretanto apenas recordadas em diversas e inconsequentes notas-de-rodapé.